DEC.LEI Nº344/97

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Escrever é poder amar-te



quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

O ALMOÇO

Assim que vislumbrou a sua silhueta à contra-luz à entrada do restaurante, ergueu-se, apertou o blazer azul marinho de botões dourados que sentía o adelgaçava, e pousou os dedos da mão esquerda sobre o tampo da mesa, como uma bengala que o amparava perante o encontro. As feições dela tornaram-se nitidas ao aproximar-se, continuava bonita apesar dos pequenos papos que rodeavam os olhos claros, uns pequeninos montinhos de carne junto às rugas que se escavavam desde as comissuras dos lábios, o cabelo não era branco, talvez azulado. Hesitaram no cumprimento, sorriram pelo embaraço e acabaram a sentir a mão um do outro passados mais de vinte anos. Ele ajeitou-lhe a cadeira no gesto cavalheiro, ela baixou o olhar sobre a mesa e deslizou ambas mãos sobre a toalha branca marcando o vinco do limite da superficie.Sorriram mais uma vez, o tempo sem passar, a ementa chegou, ela procurou os óculos e escolheu, ele pediu o mesmo para si, mas apenas porque não lía coisa alguma ao perto e não quería que ela o percebesse. Falaram dos filhos e dos netos, das proezas, de como ocupavam o tempo agora todo para si. Calaram a verdade da emoção de se voltarem a encontrar, a solidão contada dia-a-dia, o amor partido e lembrado num aperto junto ao peito. Despediram-se, um beijo roçado na face, ela reconhecendo a velha colónia muito fresca dele, ele sentindo os cabelos dela a fazerem cócegas sobre o seu nariz. Arrependeram-se. Mas nada disseram, já tinha passado mais de vinte anos.

5 comentários:

Chat Gris disse...

Isto lembra-me um conto da I. Pedrosa, creio que se chama "Só sexo". Nunca li mais nada dela, apenas este conto que revisito muitas vezes numa fotocópia amarelada.
E tu, escreves melhor que ela :)
Tem um BOM ANO! e lambidinhas cá do rapaz.

Papoila disse...

Linda
Tenho andado afastada, sem tempo, com a moral um tanto ou quanto em baixo.....
Agora que estou a melhorar virei aqui mais vezes pois sabes o quanto gosto da tua escrita. Hoje, no entanto vim apenas com o intuito de te desejar que vivas esta época na sua plenitude.... com muita paz e muito amor. Mereces. Beijos
BF

poetaeusou . . . disse...

*
quando sai o próximo livro ?
,
nivel elevado
*
xi
*

Lu@r disse...

Nunca é tarde demais para partilhar uma vida.

Beijo

Eärwen Tulcakelumë disse...

Quando as lembranças estão tão vivas assim, garanto que o tempo não passou...os anos nada representam. Lindo conto!!!
Caminha agora, Amiga, em direção ao meu mundo e retira o fio que te pertence.

Com carinho

Eärwen